Dicas de Roth para o 3-5-2: marcação adiantada e pressão

Participei ontem de entrevista especial comandada pelo colega Alexandre Alliatti com o técnico Celso Roth, do Inter. Em quase uma hora, o enfoque do bate-papo foi a carreira do treinador campeão da América neste ano. Ao final incontive a introdução ao debate tático que me apraz. Roth não se furtou à conversa, embora expresse com clareza sua contrariedade com os analistas esportivos e ‘seus rótulos’.

Passando pela final do Mundial de 2009 – Estudiantes x Barcelona – para analisar em paralelo o confronto provável do Inter com a Inter de Milão em Abu Dhabi pela mesma competição no dezembro próximo, Roth transmitiu importantes conceitos sobre o (mau) uso do 3-5-2 no Brasil. Palavras do técnico do Inter:

– Está errado vocês dizerem que 3-5-2 é esquema retranqueiro. O 3-5-2 não é um sistema feito para se defender.Ele foi criado na Europa, e como tudo nós copiamos, para marcar melhor dois atacantes. Ficam dois zagueiros em dois atacantes e sobra um.

– Ele precisa, para dar certo, de marcação adiantada e pressão. O time tem que se posicionar no campo do adversário, com os alas passando a todo o momento.

Concordo com Roth. O 3-5-2 – ou o 3-6-1 – teriam desempenho mais agradável à observação com esta postura agressiva. Marcar no campo adversário, adiantar o trio defensivo, espetar os alas sobre os laterais. Desta forma, retirar espaço do rival, encurtar o campo, e com os três zagueiros recuperar com maior facilidade a bola. Tendo-a sob controle, e com jogadores enfiados no campo adversário, fazer a transição rápida.

O curioso, entretanto, é que isto não se pratica no Brasil. O 3-5-2 tem aplicação absolutamente inversa: linhas recuadas, marcações individuais por função e posicionamento obedecendo estratégia defensiva. Saídas? Apenas em contra-ataques com muito campo a se percorrer, com a bola longa – o ‘Muricybol’, ou a ‘Rugbyzação’. Dois ‘rótulos’ para ajudar Roth na crítica à imprensa esportiva.

No diagrama tático que ilustra o post, reproduzi o 3-5-2 do Grêmio de 2008, com Roth. Alguém recorda se este time seguia as premissas do sistema defendidas pelo agora treinador do Inter? Vasculhei minha memória: não. Era um 3-5-2 com linhas recuadas, reativo, e de transição ofensiva longa (ligação direta de Pereira para Marcel, que quebrava a segunda bola para Perea). Um legítimo 3-5-2 à brasileira.

Nesta constatação não há crítica a Roth. É só pela oportunidade de um curioso contraste entre teoria e prática. O próprio técnico defende conceitos que, um dia, viu-se obrigado a contrariar – acredito, pelas características dos jogadores com os quais contava. Os bons treinadores são aqueles que conseguem capturar nas virtudes do elenco o melhor sistema, e a melhor estratégia.

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3 respostas para Dicas de Roth para o 3-5-2: marcação adiantada e pressão

  1. O pensamento atual do Roth é interessante e de fato, a marcação adiantada é um recurso que melhora demais qualquer equipe, mas não é fácil manter a marcação sob pressão, no campo do adversário durante todo o jogo, independentemente do sistema utilizado, seja o 3-5-2, o 3-6-1, o 4-2-3-1 ou o 4-2-2-2. O Barcelona nos últimos jogos vem fazendo utilizando de tal artificio nos poucos momentos que fica sem a bola, chegando a ter até 8 homens a frente da linha do meio campo.

  2. Ratofx disse:

    Pois é,vi a entrevista e fiquei me perguntando por que diabos ele nunca fez isso no 3-5-2 que ele usava no tricolor. Ainda havia um problema no meio de campo que ficava sempre com um jogador a menos que o adversário, dava espaço ao contra-ataque e dependia exclusivamente da qualidade do Tcheco, que era irregular. Pra mim, a pior parte era que o laterais/alas eram muito ruins, e ficavam atrás marcando.
    Mas concordo com o Roth, não é o sistema que é retranqueiro, é como ele se aplica. E com o Roth ele se aplica com 8 ou 9 jogadores marcando individualmente o time adversário. Se ele pudesse tinha mandado até o goleiro marcar o outro goleiro.
    E parabéns pela entrevista ao Juarez!

  3. Paulo Roberto Tellechea Sanchotene disse:

    Ratofx e Cecconi,

    Algumas considerações. Evidentemente que o 3-5-2 brasileiro seria diferente do europeu. O problema está na maneira como jogam os laterais lá e aqui.

    Na Europa, o sistema mais com era o 4-4-2 em linhas. Assim, a mudança para o 3-5-2 reduziu o número de jogadores na defesa e aumentou um na meia-cancha. Lá, essa alteração significou a saída de um zagueiro do time para a entrada de um cabeça-de-área (num esquema mais conservador) ou de um articulador/ponta-de-lança (noutro mais ofensivo). Independentemente da opção, não se perdia poder de marcação na defesa porque havia um jogador na sobra, contra os dois atacantes adversários; e, em contra-partida, se permitia marcar mais acima -e em pressão- com a presença de um jogador a mais no meio-de-campo.

    No Brasil, cujo sistema mais comum é o 4-2-2-2, a mudança para o 3-5-2 foi diferente porque os laterais já eram alas. A função do lateral brasileiro é muito mais parecida com os meias abertos da segunda linha do 4-4-2 europeu do que com os laterais desse esquema. Aqui, a passagem para o 3-5-2 significou a saída de um meia (no esquema conservador) ou de um volante (no mais ofensivo) para a entrada de um 3º central (não de um 3º zagueiro). Ou seja, uma mudança feita para tornar o time mais ofensivo na Europa, naturalmente tornava as equipes brasileiras mais defensivas. O 3-5-2 nacional é forçosamente um 5-3-2. Não é à toa que os times acabam jogando recuados, especulando e saindo em velocidade com bolas longas!

    No Brasil, para um 3-5-2 ser efetivamente ofensivo, como, salvo melhor juízo, o Grêmio de 2001 (Tite), tanto os laterais necessitam jogar bem mais acima do que estão acostumados, como os zagueiros têm que cobrir a lateral defensiva como nunca foram treinados para fazer.

    No fundo, nesse caso, a principal diferença entre a teoria e a prática termina sendo o elenco…

    Abraço.

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